domingo, julho 11, 2004

Desequilíbrio de mercado

Recebi de um dos meus colaboradores anônimos ...

Pessoal, eh meio grande mas de leitura rápida. Vale a pena ler por que reflete bem a realidade de emprego em grandes empresas no Brasil.


MATÉRIA - REVISTA EXAME
Por Max Gehringer


Vi um anúncio de emprego. A vaga era de gestor de atendimento interno,
nome que agora se dá à seção de serviços gerais. E a empresa contratante
exigia que os eventuais interessados possuíssem - sem contar a formação
superior - liderança, criatividade, energia, ambição, conhecimentos de
informática,fluência em inglês e, não bastasse tudo isso, ainda fossem hands on. Para o felizardo que conseguisse convencer o entrevistador de que possuía mesmo essa variada gama de habilidades, o salário era um assombro: 800 reais. Ou seja, um pitico. Não que esse fosse algum exemplo absolutamente fora da realidade. Pelo contrário, ele é quase o paradigma dos anúncios de emprego atuais. A abundância de candidatos está permitindo que as empresas levantem, cada vez mais, a altura da barra que o postulante terá de saltar para ser admitido. E muitos, de fato, saltam. E se empolgam.
E aí vêm as agruras da superqualificação, que é uma espécie do lado avesso do efeito pitico... Vamos supor que, após uma duríssima competição com outros candidatos tão bem preparados quanto ela, a Fabiana conseguisse ser admitida como gestora de atendimento interno. E um de seus primeiros clientes fosse o seu Borges, gerente da contabilidade.

B:Fabiana, eu quero três cópias deste relatório.
F:In a hurry!
B:Saúde.
F:Não, isso quer dizer "bem rapidinho". É que eu tenho fluência em inglês. Aliás, desculpe perguntar, mas por que a empresa exige fluência em inglês se aqui só se fala português?
B:E eu sei lá? Dá para você tirar logo as cópias?
F:O senhor não prefere que eu digitalize o relatório? Porque eu tenho
profundos conhecimentos de informática.
B:Não, não. Cópias normais mesmo.
F:Certo. Mas eu não poderia deixar de mencionar minha criatividade. Eu já comecei a desenvolver um projeto pessoal visando eliminar 30% das cópias que tiramos.
B:Fabiana, desse jeito não vai dar!
F:E eu não sei? Preciso urgentemente de uma auxiliar.Como assim?
É que eu sou líder, e não tenho ninguém para liderar. E considero isso um desperdício do meu potencial energético.
B:Olha, neste momento, eu só preciso das três có...
F:Com certeza. Mas antes vamos discutir meu futuro...
B:Futuro? Que futuro?
F:É que eu sou ambiciosa. Já faz dois dias que eu estou aqui e ainda não
aconteceu nada.
B:Fabiana, eu estou aqui há 18 anos e também não me aconteceu nada!
F:Sei. Mas o senhor é hands on?
B:Hã?
F:Hands on. Mão na massa.
B:Claro que sou!
F:Então o senhor mesmo tira as cópias. E agora com licença que eu vou sair por aí explorando minhas potencialidades. Foi o que me prometeram quando eu fui contratada.

Então, o mercado de trabalho está ficando dividido em duas facções. Uma,
cada vez maior, é a dos que não conseguem boas vagas porque não têm as
qualificações requeridas. E o outro grupo, pequeno, mas crescente, é o dos que são admitidos porque possuem todas as competências exigidas nos
anúncios, mas não poderão usar nem metade delas, porque, no fundo, a função não precisava delas.

Alguém ponderará - com justa razão - que a empresa está de olho no longo
prazo: sendo portador de tantos talentos, o funcionário poderá ir sendo
preparado para assumir responsabilidades cada vez maiores.Em uma empresa
em que trabalhei, nós caímos nessa armadilha. Admitimos um montão de gente superqualificada. E as conversas ficaram de tão alto nível que um visitante desavisado que chegasse de repente confundiria nossa salinha do café com o auditório da Fundação Alfred Nobel. Até que um dia um grupo de marketing e finanças foi visitar uma de nossas fábricas. E, no meio da estrada, a van da empresa pifou. Como isso foi antes do advento do milagre do celular, o jeito era confiar no especialista, o Cleto, motorista da van. E aí todos descobriram que o Cleto falava inglês, tinha noções de informática e possuía energia e criatividade. Sem mencionar que estava fazendo pós-graduação. Só que não sabia nem abrir o capô. Duas horas depois, quando o pessoal ainda estava tentando destrinchar o manual do proprietário, passou um sujeito de bicicleta. Para horror de todos, ele falava "nóis vai" e coisas do gênero.Mas, em 2 minutos, para espanto geral, botou a van para funcionar.Deram-lhe uns trocados, e ele foi embora feliz da vida.
Aquele ciclista anônimo era o protótipo do funcionário para quem as empresas modernas torcem o nariz, uma espécie de pitico contemporâneo: O que é capaz de resolver, mas não de impressionar.